beans scene – Tommy The Movie
Era uma vez uma menina de cabelos cor de fogo muito graciosa e boa com as pessoas. Ela era feliz, pois via beleza em tudo, até nas coisas mais corriqueiras.
Você sabe o que são coisas corriqueiras?… O revoar de uma borboleta, o sol se pondo no horizonte, um filhotinho, uma flor abrindo, um sorriso de mãe…
Morava com a mãe de olhos amendoados numa cidadezinha distante… Sua vida seria perfeita se elas não fossem tão pobrinhas, às vezes ela e a mãe de olhos amendoados passavam fome. Comiam farinha com óleo para distrair a vontade. No inverno, era sopa de jornal em água morna, tudo para saciar o estômago vazio. No verão, a mãe de olhos amendoados inventava um jogo bem divertido que transformava a fome em brincadeira. Sempre tentando fazer a filha esquecer um pouco.
“Filha, quem trouxer mais frutas da floresta ganha.” É! Esqueci de dizer que moravam perto de uma linda floresta cheia de árvores frondosas e campos floridos. A menina de cabelos cor de fogo saia felicíssima na corrida pelas frutas, conseguia amoras, pitangas, mangas, jambo…
Um dia foi jogar o jogo da caça as frutas – assim denominaram a brincadeira – mas andou andou andou e nada encontrou. A barriga roncava que nem relincho de cavalo velho. Sentou-se tristinha numa pedra preta e fria…
De repente surgiu uma moça muito bonita e também bem diferente. Ela era rosa com cabelos gigantescos repletos de flores e galhos, parecia uma fada. A menina de cabelos cor de fogo nem estranhou tanto, pois achou que delirava de fome, estava meio confusa…
O que te aflige boa menina? Perguntou a moça da floresta.
Não é nada, estou só descansando.
Tenho um presente para você.
A menina de cabelos cor de fogo estranhou, elas nem se conheciam, como poderia ter um presente para ela. E além do mais, a mãe de olhos amendoados sempre dizia para ela não aceitar coisas de estranhos… Se bem que a moça da floresta parecia tão legal… estranha… mas legal.
…É uma panela. Continuou a moça da floresta.
Uma panela? Perguntou a menina de cabelos cor de fogo com cara de espantada.
Sim! Uma panela muito especial. É uma panela mágica. Sempre que sentir fome, você diz as palavras mágicas: cozinha panelinha, cozinha panelinha! E irá provar o mingau mais fantástico e saboroso do mundo! Com aroma e sabor que você nunca experimentou.
É só dizer cozinha panelinha e a panela cozinha? Perguntou a menina de cabelos cor de fogo descrente arqueando as sobrancelhas.
Você deve dizer duas vezes: cozinha panelinha, cozinha panelinha! E o míngua irá surgir. E para parar o cozimento diga as palavras mágicas: cessar panelinha, cessar panelinha! Lembre-se: para a panelinha parar de cozinhar você tem que dizer: cessar panelinha, cessar panelinha!
A menina de cabelos cor de fogo aceitou o presente. Despediu-se ainda achando que a moça da floresta estava só brincando com ela, parecia era meio doidinha. Contudo, assim que chegou em casa correu para a cozinha e colou a panela no fogão.
Cozinha panelinha, cozinha panelinha!
A panela começou a trepidar. A menina de cabelos cor de fogo arregalou os olhos com medo de o troço explodir. Percebeu que do fundo da panela brotava um mingau denso e com um aroma impressionante que ela nunca sentira. Quando o mingau estava quase no topo da panela, ela disse: cessar panelinha, cessar panelinha! E a panela parou no instante. A menina de cabelos cor de fogo ficou pulando eufórica e correu para contar para sua mãe de olhos amendoados. As duas provaram o melhor mingau do mundo, com um sabor que não dá para descrever com palavras. Mas as expressões de satisfação, de prazer e completude, essas sim. Durante um bom tempo viveram contentes com sua panelinha.
Uma bela manhã, a menina de cabelos cor de fogo tinha ido para a escola. A mãe de olhos amendoados ia receber em casa umas comadres. Pensou em fazer o maravilhoso mingau para as visitas. Colocou a panela em cima do fogão e disse as palavras mágicas: cozinha panelinha, cozinha panelinha! E a panela começou a trepidar e do fundo da panela brotou o mingau com aquele aroma impressionante que dava vontade de comer tudo sozinha. Quando o mingau estava quase no topo da panela, a mãe de olhos amendoados disse: para panelinha, para panelinha! … Mas a panela não parou. O mingau transbordou e começou a sujar o fogão todo. A mulher ficou nervosa e disse: chega panelinha, chega panelinha! E o mingau escorreu pelo fogão encontrando o chão. A mãe de olhos amendoados deu um passo para trás vendo aquilo estarrecida. O mingau envolveu todo o chão feito um tapete e rapidamente já alcançava a canela da mulher. Ela repetia: chega panelinha, chega panelinha! E nada acontecia. Ela subiu na mesa e quando o mingau estava com mais de um metro de altura já mingauzando tudo. Ela disse chorosa: pelo amor de deus panelinha, pelo amor de deus panelinha! O mingau continuou subindo, alcançou seus pés, joelhos, cintura… não faz isso comigo panelinha, não faz isso comigo panelinha! Subindo subindo glub glub glub… A mãe de olhos amendoados sumiu.
O mingau continuou se espalhando pela casa inteira, saiu pelas janelas e ligeiramente transformou a rua num rio denso e cheiroso. As pessoas desesperadas. Em pouco tempo o bairro era uma lagoa de mingau, um oceano… tinha gente nadando no mingau, velejando no mingau, botes, coletes salva-vidas, tinha até gente pegando onda na crista do mingau… até jet ski eu vi passar… no mingau.
A menina de cabelos cor de fogo que estava do outro lado da cidade copiando o exercício do quadro negro, começou a sentir aquele aroma. O aroma que só ela reconheceria. Da janela farejou ainda mais forte. Correu para o portão da escola e avistou no fim da rua, uma tsunami de mingau… Ih!
A onda já estava alcançando a escola e a menina de cabelos cor de fogo teve uma idéia, correu para o terraço, prendeu a cabeleira, se preparou e… tibum, mergulhou no oceano de mingau. E foi nadando crau nadando nadando nadando, no meio mudou o estilo porque era longe para cacete, nadou nadou nadou…
Finalmente chegou a sua casa, já muito cansada, não estava tão em forma para nadar no mingau. A janela era uma verdadeira cachoeira. Tomou fôlego e mergulhou fundo, foi tateando, conseguiu entrar pela janela da cozinha, encontrar a panela e com muita dificuldade disse:
Cessar panelinha, cessar panelinha!…
E a panela parou! Demorou algum tempo para as coisas voltarem ao normal. Dizem que a menina ficou famosa na cidade em que as pessoas precisavam abrir caminho comendo mingau para sair de casa. A menina e a mãe enjoaram de mingau por um tempo, mas só por um tempinho… porque a panelinha… a panelinha ainda treme.






